Boa leitura!

Abra-se, sinta o cheirinho penetrar nas suas narinas e o abraço envolver o seu corpo. Respire fundo, não tenha medo!
Entre neste mundo que não é só meu, viaje comigo e deixe-se levar.

30 de outubro de 2015

Cadê o laço de fita?

Meninas sem laço de fita
Meninas um tanto perdidas
Meninas que falam demais
Por isso patinam pra trás
E o trabalho não rende jamais

Bem, muito bem
Nada bem

Meninas sem laço de fita
Vejo-as desanimadas e sentidas
Tempo perdido se foi
Agora é tentar como for?

Não Não Não

Meninas sem laço de fita
Sorriam que a vida está colorida
Encontrei seus laços de fita
Coloridos encantam a vida

Como assim?

Meninas sem laço de fita
Hoje não quero o texto
Tenho um novo pretexto
Busquem a fita colorida 
Envolvam-na no trabalho
Revisem-no, enfeitem-no
Projetem!!!

Meninas sem laço de fita
Busquem as fitas coloridas
Entreguem-nas na próxima aula
Agora vamos embora
Arrumando as fitas coloridas.

Poema dedicado às alunas: Andressa Da Silva Cordeiro; Bianca Teixeira Barbosa; Cibele De Souza Roque; Graziela Agostinho Candido; Jessica Pereira Valerio; Kélita Santinoni; Mayara Lidio Fidelis, da 2a fase de Publicidade de Propaganda, da Faculdade Satc (30 out. 2015)

2 de junho de 2014

Sentimentos misturados

Assim que acordei e me levantei da cama, deparei-me com os olhos vidrados no espelho que cobre a parede deste quarto. Aqui, meu pensamento foge de mim mesma e recordações tomam conta do meu íntimo. Talvez, isso se deve às rugas que enfeitam a minha face, talvez à pele manchada pelo sol, ou ainda ao olhar que transborda experiências de épocas ora felizes e ora ainda mais felizes.
Assim, atenta ao espelho, permaneci e permaneço por longas e longas horas. Como em um passe de mágica, minha aparência de 80 anos dá vez ao corpo de uma garotinha saltitante, que corre com os cabelos loiros e encaracolados ao vento pelo gramado do sítio da família. Em Santa Felicidade, realmente eu fui feliz; aqui eu sou feliz.
Quando criança, mamãe vestia-me com coloridos vestidos de chitas, repletos de babados, laços e fitas, dentro dos quais eu me sentia uma boneca de pano. Sempre com meias brancas em detalhes em passa-fitas, acrescentava-se aos pés os típicos sapatos de bonecas, sempre coloridos. Como, em um mundo encantado, vivia assim: correndo pelos cantos, recolhendo ovos, brincando com os porquinhos, incomodando os bichos dali.
Na escola, também era tudo muito divertido. A alguns quilômetros da casa principal, ficava nossa sala de estudo: um pequeno quadrado, um quadro negro, carteiras enfileiradas, colegas especiais e a dona Maricota. Que saudades que tenho dela! Foi dona Cotinha quem me despertou ao que fui, ao que sou: professora...
Em meio àquele mundo, fui crescendo, do sítio à escola, da fantasia à imaginação... mas, infelizmente, fui ficando grandinha. Digo infelizmente porque quando se é criança o mundo é um repleto arco-íris, as brincadeiras são incontáveis, os problemas não existem e as preocupações são com o fantasiar e com o que criar para brincar.
Pouco a pouco, fui recebendo responsabilidades de meus pais. A menina dos laços e fitas e roupas de chita foi aprendendo a usar calças e botas de borracha, a dar milho às galinhas e lavagem aos porcos.
Confesso que aquela alegria de meninice foi dando espaço a tarefas que pouco me agradavam. A vida no sítio passou a ser rotineira e a perder o brilho, meus cabelos sempre soltos ao vento, agora estavam sempre em forma de coque; de Alice no País das Maravilhas, passei a me sentir a Cinderela sem seu sapatinho, mas sonhando pela chegada do príncipe encantado.
Por bons anos fiquei assim, ajudando meus pais e estudando, sempre buscando ficar o mais próximo possível da professora Maricota. Ela, percebendo todo meu interesse e dedicação, um dia me fez uma proposta: tornar-me sua ajudante.
Aquela oportunidade foi para mim tomada como a chave que abriria espaço para uma nova vida, a minha nova vida. Claro que aceitei e, com ela, aprendi todos os segredos do fazer professora. Aprendi a gostar ainda mais da escola, dos alunos, dos livros... E mais: aprendi a me perder nos livros e assim conheci muitas pessoas, muitos lugares e, inclusive, descobri como me tornar professora de fato.
Após anos ao lado de Cotinha, e mesmo contra a vontade de meus pais, saí do sítio e fui construir a minha história. Com o auxílio da minha mestra, segui para uma cidade vizinha onde havia uma escola de ensino superior, pequena, porém suficiente para as minha pretensões...
Tempos ali, instalada e quase ao final do curso, o sapatinho de cristal que – quem sabe eu havia perdido lá no sítio – foi encontrado por Marco. Amor eterno! Era um homem que chamava a atenção de qualquer rapariga: elegante, vestia-se em boas fazendas, usava sapatos engraxados e possuía lindos olhos azuis que brilhavam com a luz do sol. Além disso, tinha um sorriso de menino, mas o jeito de uma pessoa madura que seria capaz de me proteger de qualquer perigo.
Apaixonei-me, ele também... Meses depois, no sítio dos meus pais, e logo após o término da faculdade, casamo-nos e voltei a morar ali, nas terras da família. Naquele local, junto a Marco – que era um grande administrador e visionário – construímos uma pequena escola que pouco a pouco foi crescendo. Nela trabalhei até me aposentar e é onde hoje meus filhos mantêm a tradição da família e os negócios do pai que há 10 anos faleceu. Foi levado por uma doença da qual não quero falar, da qual me faz mal falar.
Meus pais ficaram conosco bons anos, participaram no nosso casamento, da nossa felicidade, do nascimento das nossas crianças e até do nosso primeiro netinho. Viveram bastante, eram pessoas felizes que souberam aproveitar a vida no campo, a se alimentar bem e a velhice os levou para um lugar bem especial.
Não nos desfizemos de nada do que deixaram e também - eu e Marco - não cogitamos em sair daqui. Aquele meu pensamento de adolescente foi embora na época da faculdade, quando – longe de papai e mamãe – conheci o sentimento da saudade.
Agora estou aqui, sigo diante deste espelho, nostálgica com o meu passado e, ao mesmo tempo, com medo do que virá. Sinto que as minhas pernas não são mais tão fortes como antes, vejo que meus cabelos loiros agora são tão brancos que chegam a ser azulados, que meu corpo está encurvadinho.
Tenho medo de não ver meu netinho crescer, tenho medo de deixar meus filhos. Sei que já cresceram, que estão grandinhos, mas - para mim - eles são apenas crianças que precisam da minha proteção. Na verdade, tenho medo é da morte.
Esta noite, sonhei com Marco, ele estava bem, em um belo traje. Bailávamos – só nós dois – ao centro de um grande salão, dizia-me que me amaria para sempre e que estava à minha espera para juntos rodearmos o salão como fazíamos quando casados em vida. Dizia-me que queria me sentir, poder tocar em minhas mãos e ficar assim, horas e horas olhando o horizonte, perdendo-se em pensamentos.
Acordei num susto e, ao sair da cama, senti meus pés e pernas cansados como se tivesse dançado a noite toda, como se o sonho tivesse sido real. Por isso, aqui estou, diante do espelho, mexida, com medo e, ao mesmo tempo emocionada, lembrando-me do meu velho, lembrando-me do meu grande amor. Recordo nossa história, com medo, mas ao mesmo tempo com o desejo de poder transformar-me em um cisne e flutuar pelo salão com a pessoa que sempre amei e que espera por mim.

27 de maio de 2014



Olhos de bolotas que encontram um príncipe encantado

Era uma vez... Não via a hora de chegar aquele momento, de colocar o maravilhoso vestido e, de gata borralheira, transformar-me na princesa dos olhos de bolotas azuis.
Logo no início da tarde, os preparativos começaram: brinco, anel e pulseira separados; sapatos e vestido a postos; unhas e cabelos arrumados... Enfim, tudo organizado para a serata.
Parecia que aquele dia estava me dizendo que algo maravilhoso mudaria a minha história. Mesmo assim, não dei importância ao que sentia, afinal, até então estava tudo monótono, tudo do mesmo jeitinho.
Final de tarde, arrumei-me e segui para o local do jantar. A noite estava tristonha, ou melhor, havia chovido e as estrelas não queriam brilhar, escondiam-se entre as nuvens. Era um clima nostálgico, de reflexão, de situação.
Diante do salão, encontrei as minhas companheiras reais, cumprimentamo-nos e nos colocamos a recepcionar os convidados. Cada qual trazia em seu semblante um sorriso e um ar de “que bom estar aqui”. Dessa forma, aquela noite chatinha foi ganhando ares de alegria e encantamento. O friozinho inicial deu espaço a um calor que não permitia que rainha e princesas permanecessem o tempo todo no salão devido à quantidade de panos do vestido.
E assim ficamos: “Buona sera”, “Boa noite”, “Come stai”... E entre uma conversa e um sorriso, alguém me chamou a atenção, porém, fiquei na minha, fiz de conta que nada era nada. Até que o jantar começou a ser servido e nós, da realeza, não sabíamos o que fazer.
Diante da mesa onde estávamos, os familiares de uma das princesas se encontravam e para eles questionamos: “Será que podemos jantar?”. E um menino, sorrindo – que nunca tinha visto em nenhum dos eventos... um príncipe vestindo preto, usando óculos – olhou-me e disse: “Princesas são jantam, vivem de sorriso!”. Foi o que bastou para me chamar ainda mais a atenção e o ambiente ser invadido por sensações estranhas, porém, muito boas.
A noite seguiu, jantamos sim, divertimo-nos e confesso que trocas de olhares aconteceram, de uma forma um pouco disfarçada. Algo parecia mais forte do que eu, algo realmente me contagiava. E, pertinho do príncipe estava a minha família e a família dele, assim, podíamos ficar próximos... Talvez coisa do destino, talvez quisesse que nos conhecêssemos.
Após o jantar e as brincadeiras com as crianças, fui à rua pegar um arzinho. Encostada ao ferro de apoio da escada, conversando com o povo real, de repente veio ao nosso encontro o príncipe loiro, de olhos azuis, porém sem seu cavalo branco, também não era necessário. Simpático, sorridente, pôs-se a conversar conosco.
A conversa foi interrompida, eu acho que pelas brincadeiras das crianças que ali estavam e que nos entregavam pequenas flores. Uma delas – não sei o porquê – transformou-se em uma verdadeira jornalista, perguntando-me sobre a minha vida: onde morava, o que fazia, quantos anos tinha... Para o príncipe, quem sabe, foi algo conveniente porque, dessa forma, não precisaria perguntar, perguntavam por ele.
Não ficamos muito tempo conversando não, em seguida, começou a brincadeira: hora do bingo, hora da entrega dos prêmios, hora de voltar à realidade e colocar os pés ao chão. Compreender que para uma história iniciar, outras situações precisariam ser pensadas e repensadas, decisões precisariam ser tomadas para que não houvesse mágoas e nem ressentimentos.
Assim aconteceu... Dias se passaram, mas a princesa não conseguiu esquecer o príncipe sem cavalo branco, a princesa não conseguiu mais não pensar no príncipe sem cavalo branco... a princesa passou a pensar no príncipe sem cavalo branco a todo o momento.
Entre pensamentos e pensamentos, uma velha história foi rompida, uma nova história iniciada. Uma história em que a princesa dos olhos de bolotas e o príncipe sem cavalo branco viverão felizes para sempre, alegrando o reino sempre encantado.

16 de maio de 2014

A magia das histórias

“Chegou a hora!” – disse a mim mesmo – “É hora de apagar a tevê, concentrar-me e trazer a tona o que nesta mente brilhante sempre fica borbulhando.”
 É sempre aquela mesma coisa, lá, lá no fundinho da caixa preta, as histórias incríveis saem e se forem contadas em voz alta, parece que também saem, não com eu gostaria, muita coisa se perde, mas... “Garoto, foco!”.
 Opss, meu inconsciente está me chamando.
Retomo as letras e aqui estou eu novamente: luz, câmera, ação...
....................................................
___ Capisco si!
Era assim que as conversas sempre terminavam quando papà, diante da plantação, tentava me ensinar sobre a lida. Porém, confesso que não estava nada interessado pelos seus ensinamentos.
___ Fabrizio mio, non è così che si taglia l'uva, caspita!
Não entendia ele, que a forma de eu retirar o cacho de uva tinha haver com a minha imaginação. Eu era apenas uma criança, tinha oito anos, queria brincar e a forma encontrada era fantasiando.
Lembro-me muito bem de ser surpreendido várias vezes por mio papà aos sacolejos, segurando-me pelos braços e gritando:
___Svegliati, svegliati, svegliati dai tuoi sogni, ragazzo, ora momento dal lavoro, Dio Mio.
Sabia que era momento do trabalho, mas eu estava sim lavorando, fazendo lavoro de bambino: ampliando a minha fantasia. Nessas horas em que via mio papà arrabbiato, logo procurava encontrar uma forma de escapar do inimigo. Era engraçado.
Saía correndo pelos parreirais, mio papà atrás, com a cinta in mano – para mim uma arma poderosa que poderia me deter – porém, por eu ser piccolino, corria muito mais, além de ter mais fôlego. Claro que papà nunca me alcançava, ele sempre acabava se sentando para descansar e dizia as mesmas palavras:
___ Ragazzo, ragazzo, non hai giudizio!
Juízo eu tinha de sobra, adorava ver mio papà correndo atrás de mim, era pura diversão. As pisadas nos ganhos secos e nas folhas caídas ao chão faziam um barulho que ainda hoje me trazem sensações maravilhosas. Parecia uma tropa tentando me capturar e eu fugindo.
Quando eu percebia que ele tinha se acalmado, procurava chegar perto. Apesar daquele jeito rude, de correr com a cinta in mano, non mi ha mai colpito um tapa, sempre foi bem carinhoso. Mamma sempre comentava que papà parecia um abacaxi dolce: bello por dentro e brutto por fora.
Bene, papà sempre tentou me ensinar as lidas do lavoro. Hai capito? A verdade é non ho mai capito niente, sempre quis saber de outras coisas, menos de uva, menos de piantagione. Mio papà dizia que eu era um bambino estranho, mas um figlio molto speciale porque consegui, pouco a pouco, fazer com que ele também conhecesse o meu mundo.
Até os sete anos, mia mamma é quem ficava comigo o dia todo. Ela costumava a dizer a famiglia que eu tinha alguma coisa diferente, mas que não sabia o que era. Confesso que também me sentia assim, as crianças da minha idade gostavam de coisas normais: peão, bola de gude, boneca, carrinhos; mas eu era atraído por letras.
Se quisessem saber onde estava Fabrizio, poderiam apostar: diante de um cartaz, uma revista... qualquer coisa que tinha letra. Por isso, ao completar oito anos, mamma e papà fizeram um acordo: papà ficaria comigo na plantação porque assim eu estaria longe das letras e me tornaria um bambino normal.
Una vera illusione! Naquela época, a escola era lontana, aprendíamos tudo em casa, con i genitori. Mia mamma, mal tinha terminado a quarta-série e não sabia escrever, mio papà rabiscava apenas algumas palavras. Eu, Fabrizio, com oito anos, ficava ali, em frente delas, que me chamavam tanta atenção, mas que me foram “proibidas’, brutto engano.
Um nuovo mundo eu encontrei junto ao papà, lá no meio dos parreirais eu criava minhas histórias, fantasiava, chegava até a dormir de tanto sonhar, o que me levava a ser sacolejado ou a ter que fugir do arqui-inimigo. Quando chegávamos a casa, mamma perguntava:
___ Qualcosa di nuovo?
___ Niente! Le stesse stranezze!
Eu sabia do que comentavam, de mim, claro, mas não me importava não. E dia após dia, mio papà me levava ao lavoro e sempre havia sessão de teatro, pelo menos para mim.
Com o passar dos anos, não sei como nem por que, comecei a tirar da minha cabeça as histórias e deixava a boca lavorare. Percebia, nessas horas, que muitos trabalhadores – além de mio papà – paravam para me escutar e os olhares deles iam lontani ou tão mais que os meus.  Até que um dia, ao chegar a casa, mia mamma novamente perguntou:
___ Qualcosa di nuovo?

___ Niente! Le stesse stranezze, ma sono meravigliosi.

15 de maio de 2013


Signo? Leão
Teimosa? Um pouco...
Indecisa? Quem sabe medrosa...
Organizada? Dizem que muito.
Sonhos? Alguns abandonados.
Franca? Deveria me segurar mais.
Ciúmes? Tenho sim.
Momentos? Alguns bons outros... nem tanto.
Bons? Viagens inesquecíveis.
Ruins? Perdas.
Cor? Azul e vermelho.
Mentira e omissão? Insuportáveis.
Espiritualidade e crença? Necessárias.
Flor? Do campo.
Animal? Cachorro.
Infância? Ursinhos Carinhosos.
Futuro? Primeiro o presente.
Presente? Fechar alguns ciclos.
2013? Incógnita.
2014? Falta muito ainda. 
Assim sou eu...



Não é incomum pegar-me pensando em coisas que talvez eu gostaria de ler ou realmente falar; porém, sempre deixei os pensamentos no lugar que julgava devido “dentro de mim” e não os trazia à tona. Em alguns casos por achar besteira; em outros por considerar algo passageiro, reflexo de uma determinada situação; ou então por descrédito. Não do pensamento tido, mas da ação-reação.
Pois bem, eis que em um belo dia, lendo-relendo algumas leituras, deparo-me com algo do tipo: “escreva tudo o que vem a sua cabeça”. Senti aquilo como algo propositalmente direcionado a mim e, por isso, aqui estou, a colocar meus pensamentos para fora. Não sei exatamente no que isso irá dar, tampouco se irá dar em lugar algum, todavia, sinto que a passagem pensamento – digitação – leitura me faz um pouco melhor. Dessa forma, consigo melhor colocar as ideias no lugar.
Talvez vocês me entenderão ou, quem sabe, irão me considerar como alguém que decidiu “falar”. Tudo bem, isto não é problema para mim, todavia, nos últimos tempos, procurei não “falar” tanto, acho que consegui, mas – em contrapartida – isso me provoca sensações que não combinam muito comigo.
Vamos em frente: o ato de falar... falar muito, incomoda as pessoas. Quando me refiro ao ato de falar em si, quero dizer pôr para fora aquilo que penso, aquilo que acho certo, aquilo em que acredito, sem pensar na tal ação-reação. No entanto, muitas vezes, isso provocou discussões descabidas e a escuta de termos chulos como “ela se acha”. Bem, tentei dar um tempo aos meus ouvidos, calei-me... calei-me... escutei... escutei... Não é a toa que isso tirou a juba da leonina que sempre esteve presente em mim.  Tirou sim, mas apenas temporariamente.
Só que chega uma hora que tudo cansa, acordar cansa, vestir-se cansa, ficar sentada no sofá vendo o tempo passar também cansa. Cansa porque a ação passou a ser rotineira e rotina não faz parte da vida de quem gosta da liberdade de ir e vir, de quem gosta do diferente, de quem gosta dos prazeres da vida, de quem nasceu para ser feliz.
Foi a partir dessa rotina que a juba leonina reascendeu e explodiu. Acho que posso dizer assim: explodiu! Como um choque, passando toda eletricidade por meu corpo, vi-me ligar, vi-me abrir a boca até então calada, vi-me proferir aquilo que estava dentro do meu eu, escondidinho, mas que precisava sair. Porém, confesso que dessa vez, pensei na ação-reação, tive até medo da reação, mas ou reagia contra aquilo que estava fazendo-me mal, que estava se cristalizando dentro de mim, ou... ou...
Pois bem, disse! Não gritei, não alterei o tom de voz tornando-o agressivo, apenas falei... apenas falei aquilo que estava engasgado, incomodando-me. Qual a reação de meu locutor? Talvez aquela que eu não esperava, foi o tal ou... Com isso, precisei refletir algumas questões: quem sou e o que significo?
O que parecia duradouro se dissipou diante dos meus olhos como se nada pudesse fazer. Claro que nada é muita coisa, mas para quem normalmente não tem papas na língua, naquele momento preferi me calar, afinal, tratava-se de um momento de conflito, foi essa tática que segui, sei lá se posso chamar isso de tática ou de bom senso momentâneo. Quem ali me olhasse, apenas via uma pessoa seca, uma pedra bruta, intocável, porém, quem sentisse a minha alma, enxergaria o sangue correr, o âmago tomando conta e petrificando o pensamento.
Novamente repito: momentâneo, mas por quê? Simplesmente porque o sexo feminino é sim frágil, desculpem-me quem não pensa assim, mas é frágil em controlar as emoções, é frágil em lidar com os sentimentos, é frágil em organizar os pensamentos. É frágil e ponto! Essa fragilidade também me dominou, não exatamente no momento da ação-reação, mas após o “ou”. Como de se esperar, se o coração manda, se faz: escreve-se, liga-se, procura-se... Agora pergunto: será que é o coração quem manda ou a falta de juízo?
Prefiro acreditar no coração, apesar das recomendações recebidas. Ora, quem gosta, ou melhor, quem ama não deve ter vergonha, medo receio... seja lá o que for. Muito pelo contrário, precisa querer acertar os ponteiros, saber no que errou e por que errou e se pôr em prova, tentar – ao menos – mudar. Uma conversa que, porventura, teve como objetivo refletir para uma nova ação-reação de mudança para o bem de ambos, não deveria ter um fechamento puft, conturbado, inesperado. Quem sabe, aquele tempinho a sós, de introspecção, tenha podido aliviar as amarguras, o estado de tensão, o estado de latência daquilo que estava lá, escondidinho e guardado, mas que em poucos minutos veio à tona.
Quando se ama, se busca o acerto, busca-se o diálogo, expor aquilo que não está legal, mas juntos tentarem uma inversão. Por que não está legal? Por que mudamos? Por que não somos mais os mesmo? Algumas respostas rápidas logo poderão ser pronunciadas: trabalho, estudo, trabalho, estudo... Mas a resposta que acredito mais significativa é esta: falta de compreensão das duas partes. No jogo do amor, o trabalho e o estudo afogaram o tempo da amizade, do companheirismo, dos momentos a sós. Afogaram sim, mas acredito que não a ponto de matar, nada que um novo fôlego e uma nova recuperação não consigam proporcionar todo o oxigênio necessário para um começo-recomeço-continuação.
Quero acreditar nisso, preciso acreditar nisso para não matar o que há em mim, para ainda me sentir viva. Não espero um não, não espero o fim de nada. Espero apenas que juntos consigamos compreender a atual situação sem mágoas, e unidos, dando força um ao outro, consigamos superar essa provação. 

Cristiane Dagostim - 15/05/2013, às 20h45min

28 de outubro de 2010

Em frente a minha casa




Aquela sempre foi a minha grande companheira, não importava o momento: dias tristes ou alegres. Estava sempre lá sorrindo, diante de minha casa; parecia que estendia os braços a fim de me acariciar. A pela áspera e grossa retinha as lágrimas do céu, estas eram sempre de alegria e faziam com que minha amiga se tornasse ainda mais iluminada e sorridente, exalando um maravilhoso perfume cítrico.

Juntas, brincávamos dia e noite; eu corria ao redor dela como se fosse um pequeno pássaro, sentia-me livre, não tinha preocupações, era como se aquele mundo fosse meu. Confesso que, às vezes, brigávamos, a culpa, na verdade, era sempre minha, pois eu sabia que o corpo desajeitado da minha amiga não era de fácil controle, vivia na dependência do tempo.

Aos poucos, fomos tomadas pela distância, quanto mais o tempo passava, mais a escola me exigia; depois veio a faculdade, a fase adulta e a briga com o relógio. Durante esse afastamento - se é que posso dizer assim porque ela sempre esteve lá, em frente a minha casa - soube da sua grave doença: uma espécie rara de alergia a dominou por completo e a fez - pouco a pouco - perder a alegria, o sorriso.

Um dia ao chegar do trabalho, era véspera de Natal, percebi algo estranho: não a encontrei lá me esperando, havia falecido. Fiquei triste, chorei, voltei à infância e culpei-me pelo ocorrido: será que a morte foi devido ao meu afastamento? Ela sempre me esperava, mas o tempo possibilitava-me apenas um “oi” rápido e, muitas vezes, seco. Em frente a minha casa ela não está mais, porém, sinto minha companheira de travessuras dentro de mim, em meus pensamentos.

Cristiane Gonçalves Dagostim
Crônica premiada do Concurso Literário da Academia Criciumense de Letras
Menção Honrosa